AVALIAÇÃO DA DOR COMO INSTRUMENTO PARA O CUIDAR DE RECÉMNASCIDOS

A percepção da dor é uma qualidade inerente
à vida, no entanto, a capacidade para a percepção
de uma condição dolorosa não depende de uma
experiência anterior, pois a dor é uma sensação
primária própria, assim como o tato, o olfato, a
visão e a audição, essenciais para o crescimento
e o desenvolvimento do indivíduo.1 No que diz
respeito ao recém-nascido (RN), a dor não foi
motivo de preocupação de clínicos e investigadores
durante muito tempo, pois existia a crença de que
o neonato era incapaz de sentir dor. Atualmente,
no entanto, pesquisas têm documentado que o
neonato possui todos os componentes funcionais
e neuroquímicos necessários para a recepção e
transmissão do estímulo doloroso.2
A suspeita de que o RN era capaz de sentir
dor iniciou na década de 1960, quando foi possível
observar que a mielinização não era imprescindível
para a transmissão dos impulsos pelo trato sensorial.
Hoje, sabe-se que os elementos do sistema nervoso
central, necessários para a transmissão do estímulo
doloroso ao córtex cerebral estão presentes em
recém-nascidos a termo e em prematuros, embora
a maturação e a organização desse sistema neurosensorial
continue durante a vida pós-natal.3
A dor foi conceituada em 1986 pela Associação
Internacional para o Estudo da Dor (IASP), como
uma experiência sensorial e emocional desagradável,
associada a lesões reais ou potenciais. Esse conceito
desconsidera a dor e o desconforto de pacientes que
ainda não possuem condições verbais de expor o
que sentem, como por exemplo, os recém-nascidos
(RNs). Porém, já se tem conhecimento que, além
de serem sensíveis a dor, os RNs podem sofrer conseqüências
orgânicas e emocionais e comprometer
o seu crescimento e o seu desenvolvimento.4 Nas
últimas décadas, houve muitos avanços no cuidado
ao RN, porém a avaliação e o manejo da dor ainda
não têm merecido a devida atenção nas Unidades de
Terapia Intensiva Neonatal (UTINs). Os recursos
tecnológicos de alta complexidade utilizadas nesses
serviços têm imprimido uma característica ímpar na
assistência aos bebês de risco, principalmente aos
RNs prematuros, e, contribuído significativamente
para a redução da mortalidade neonatal. Mas, é nesse
ambiente que os RNs são comumente expostos a
múltiplos eventos estressantes e dolorosos.5 Calcula-
se que, como parte dos cuidados de rotina nas
UTINs, cada RN gravemente doente seja submetido
a cerca de 50 a 150 procedimentos dolorosos por
dia.6 Por isso, torna-se imprescindível saber avaliar
a dor e estabelecer adequada intervenção, no sentido
de diminuir e/ou evitar efeitos nocivos para o
desenvolvimento do RN, além de contribuir para
uma recuperação mais rápida e para a qualidade da
assistência prestada. O que, talvez, se oponha para
que isso aconteça seja a dificuldade de avaliação do
fenômeno doloroso no RN, considerando ser a
interpretação da dor algo subjetivo e abstrato.
Devido à impossibilidade de qualquer tipo de
verbalização, a principal forma de expressar a dor
em RN passa a ser por atitudes comportamentais.7
Dessa forma, fica subentendido que a avaliação da
dor em Recém-Nascido Pré-Termo (RNPT) fundamenta-
se na avaliação das respostas destes à dor.
Essas respostas podem ser analisadas a partir de alterações
das medidas fisiológicas e comportamentais
observadas antes, durante e depois de um estímulo
potencialmente doloroso.3 Entretanto, avaliar tais
alterações é, por vezes, difícil, pois os indicadores
observáveis da dor podem ser mínimos ou ausentes,
o que exige dos profissionais adequar a forma, a
linguagem e o conteúdo da prática de avaliação da
dor no sentido de atender a realidade dos usuários e
principalmente dos grupos especiais.8 Assim, foram
desenvolvidas escalas multidimensionais, que tentam
analisar respostas comportamentais associadas
a algumas respostas fisiológicas à dor. Dentre as
várias escalas de dor descritas, as mais estudadas
são o Sistema de Codificação da Atividade Facial
(SCAFN), a Escala de Avaliação de Dor (NIPS) e o
Perfil de Dor do Prematuro (PIPP).6
A avaliação comportamental da dor baseia-se
na alteração de determinadas expressões comportamentais
após um estímulo doloroso, parecendo
ser mais sensível e específico na detecção da dor
quando comparada às medidas fisiológicas.7 Dentre
os comportamentos que podem indicar dor no
RN estão o choro, a expressão facial e a agitação.
Entre as reações fisiológicas, destacam-se o aumento
da freqüência cardíaca, respiratória e da pressão
arterial, a diminuição da saturação de oxigênio, a
apnéia, a cianose, os tremores e a sudorese.7 Entre as
respostas comportamentais à dor as mais estudadas
são a resposta motora, a mímica facial, o choro e o
padrão de sono e vigília.9
A dor acarreta importantes repercussões
no RN, das quais se enfatiza o desenvolvimento
cerebral prejudicado, o que ameaça a sua estabi-
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lidade fisiológica e ocasiona reflexos negativos,
como problemas comportamentais, que serão
percebidos apenas na infância.9 São citadas ainda
como conseqüências da dor os problemas psiquiátricos,
tais como ansiedade, depressão e esquizofrenia.
Além das conseqüências já referidas, a
dor desencadeia um aspecto negativo no quadro
clínico do RN, o que justifica a necessidade do
enfermeiro avaliar, prescrever e realizar cuidados
complementares ao alívio da dor.9
Tendo-se como premissa que ao cuidar de
RNs devem ser consideradas as situações de desconforto
e de dor por eles vivenciadas é que esta
condição foi selecionada como objeto para este
estudo. No entanto, a dor ainda se constitui em
um desafio tanto para a pesquisa como para o cuidado
de enfermagem e de saúde. Considera-se que
a busca de conhecimentos e o desenvolvimento de
estudos sobre a temática caracterizam-se como instrumentos
para uma nova prática em neonatologia.
Foi com esse desafio que a proposta do estudo foi
desenvolvida, centrando-a na identificação da dor
em RNPT pelas mães e enfermeiras.
OBJETIVOS
Analisar como enfermeiras e mães identificam a
dor em RNPT e se o fazem pela expressão facial; verificar
se as enfermeiras e as mães reconhecem os sinais
sugestivos de dor pela expressão facial do RNPT.
METODOLOGIA
Estudo exploratório e descritivo sobre a perspectiva
de reconhecimento da dor como um sinal
vital pela expressão facial do RNPT. Os sujeitos
foram 24 mães de RNPT internados na UTI Neonatal
de um Hospital Universitário e 12 enfermeiras
da referida unidade. O estudo foi realizado de
março a maio de 2005, tendo como instrumentos
para a coleta de dados dois questionários: um para
as enfermeiras – com 10 perguntas entre abertas e
fechadas; e o outro para as mães com oito perguntas
com as mesmas características (Apêndices 1 e 2).
Para avaliar a capacidade dos sujeitos do estudo em
avaliar os sinais de dor foi utilizado um quadro com
seis (06) fotos de RNPT (Apêndice 3).
A pesquisa foi desenvolvida em quatro etapas.
A primeira correspondeu a todo o processo
que envolve Pesquisa com Seres Humanos e aos
aspectos burocráticos de autorização do hospital e
da unidade para a realização do estudo. Nessa etapa
foram explicados os objetivos e o processo metodológico
do estudo, solicitado e obtido o Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido dos envolvidos.
Às mães, foi solicitado autorização por escrito para
a realização e utilização das imagens fotográficas das
crianças no estudo. A referida etapa foi precedida
pela aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em
Pesquisa do Hospital Universitário (HU) da Universidade
Federal do Maranhão (UFMA) registrado
sob o N° 33104-098/2005.
A segunda etapa compreendeu a tomada
fotográfica das crianças em máquina digital sem a
utilização de flash, pois a incidência de um estímulo
luminoso poderia alterar a mímica facial do RN.
Foram selecionados dois RNPT cujos critérios foram:
idade gestacional inferior a 37 semanas, que estivessem
internados na UTI Neonatal há cinco dias
ou mais, acompanhados pelas mães e sem suporte
mecânico de ventilação. Para a tomada fotográfica
foi aplicado o SCAFN,10 com vistas a identificar
e fotografar o momento real de dor expressa pelo
RN. Os RNs foram fotografados em diferentes
momentos, incluindo aqueles que envolviam procedimentos
médicos e de enfermagem, e, os de sono e
repouso, para em seguida serem impressas em papel
fotográfico para a visualização das imagens.
O SCAFN avalia as alterações dos movimentos
faciais frente a um estímulo doloroso levando
em conta a presença ou ausência dos seguintes
movimentos faciais: fronte saliente; olhos espremidos;
sulco naso-labial aprofundado; lábios entreabertos;
boca esticada; lábios franzidos; língua
tensa, protrusa e esticada e tremor do queixo.10
Para cada um dos itens, quando presente, é atribuído
um (01) ponto, sendo o escore máximo de
oito (08) pontos. Considera-se a presença de dor
quando a pontuação é superior a dois.10 Desses
sinais, a fronte saliente, os olhos espremidos, o
sulco nasolabial aprofundado e os lábios entreabertos
estão presentes em mais de 90% dos RNs
submetidos a um estímulo doloroso e em menos de
50% dos que recebem um estímulo desagradável,
porém não doloroso.7 O SCAFN permite a observação
da expressão facial de forma não invasiva e
constitui um dos pontos mais importantes para o
estudo da expressão da dor no RN.7
A terceira etapa compreendeu cuidadosa observação
e análise das fotos. Para tanto, utilizou-se
do SCAFN e dos registros feitos em um bloco pelas
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pesquisadoras, em que eram descritas as circunstâncias
e situações do momento da tomada fotográfica.
Completada a fase de realização das fotos, seguiuse
a escolha da série de fotos que apresentasse os
critérios para cumprir os objetivos do estudo:
boa iluminação, ou seja, todas as fotos deveriam
apresentar as nuances da imagem focalizada, como
brilho e contraste, além de exibir uma variedade
de tons e cores; nitidez da face do neonato, isto
é, nenhuma das fotos da série deveria apresentar
imagens com duplo contorno, desfocadas e/ou
tremidas; e que pelo menos uma delas deveria
caracterizar expressão facial de dor no momento
de um estímulo doloroso. Do total, foram selecionadas
seis fotos e, em seguida, organizadas em um
quadro de madeira com dimensões de 40 x 40 cm.
As fotos foram dispostas em duas colunas, com três
fotos cada, numeradas em algarismos romanos. A
foto I corresponde a um bocejo da criança; a II a
uma expressão de desconforto causado por ruído
excessivo; a III a expressão de desconforto causado
pela fricção do calcanhar pela enfermeira; a V
corresponde a um momento de repouso e a VI a
desconforto causado por iluminação excessiva. De
todas, a IV fotografia, foi a que melhor caracterizou
a expressão de dor na criança e apresentou os
seguintes comportamentos faciais: fronte saliente,
olhos espremidos, sulco naso-labial aprofundado,
boca estirada, lábios entreabertos e língua tensa
obtendo um escore de seis pontos, o suficiente para
o SCAFN classificar a situação como um momento
real de dor (Apêndice 3).
Na quarta etapa foi realizada entrevista com
os dois grupos (mães e enfermeiras) e a apresentação
do quadro de fotos para que assim fosse possível
alcançar os objetivos definidos no estudo.
RESULTADOS
Em relação à capacidade do RNPT sentir dor,
houve unanimidade entre as enfermeiras em considerar
que o paciente nessa faixa etária sente dor.
Este resultado mostra como a concepção de dor nos
RNs vem mudando, pois até o final da década de
70, prevalecia a idéia de que o RNPT não possuía
seu sistema nervoso completamente desenvolvido
e, dessa forma, não havia sensibilidade dolorosa.12
Entre as mães, observou-se que apenas uma não
concordou que o RNPT sinta dor, podendo-se
inferir que este fato seja justificado em decorrência
da pouca idade materna (14 anos).
O que diz respeito ao conhecimento sobre os
instrumentos/escalas de avaliação da dor no RN,
observou-se que, do total de enfermeiras, 25,0%
delas referiram possuir conhecimento sobre algum
tipo de escala para avaliação da dor em RNPT,
no entanto, não souberam identificar o nome da
mesma. De modo semelhante, em um outro estudo
realizado, apenas um terço dos entrevistados
referiram conhecer alguma escala para avaliação da
dor.11 Esse fato é preocupante, visto que, as escalas
de avaliação da dor no RN foram elaboradas desde
o final da década de 80,2 além de que, desconhecer
os instrumentos de avaliação da dor pode dificultar a
sua identificação assim como o emprego de condutas
adequadas que a minimizem.
Das enfermeiras e mães, quando questionadas
sobre as características de um RNPT com
dor, 95,7% citaram alterações comportamentais,
enquanto 4,3% não souberam responder. Entre
as alterações comportamentais mais citadas pelas
mães estava o choro com 73,9%, os movimentos
de membros (34,8%) e 26,1% referiram outras
alterações como recusa do peito e careta. Quanto
às enfermeiras, 75,0% citaram alterações comportamentais
e 25,0% alterações comportamentais
associadas a alterações fisiológicas. As alterações
comportamentais mais citadas foram: choro
(83,3%), movimentos de membros (83,3%), fronte
saliente (41,7%), careta (41,7%), gemência (25,0%),
boca aberta (16,7%), olhos espremidos (16,7%)
e sulco naso-labial aprofundado (8,3%). Entre as
alterações fisiológicas referidas pelas enfermeiras
encontrou-se a diminuição da saturação de oxigênio
e aumento dos batimentos cardíacos com 16,7%,
respectivamente, enquanto que 8,3% referiram a
mudança de cor da pele e a dispnéia.
As mudanças comportamentais do RN foram
facilmente identificadas pelos dois grupos, fato
importante no cuidado a esta faixa etária, definida
como pré-verbal, o que poderá facilitar, no futuro,
a utilização do SCAFN como instrumento de
avaliação da dor.
Quando perguntadas sobre a importância de
tratar a dor no RNPT, 95,7% das mães responderam
positivamente. Destas, 50,0% justificaram sua
afirmação alegando que, quando a dor é tratada,
há uma diminuição do sofrimento da criança;
27,0% achavam que o tratamento da dor proporciona
conforto e tranqüilidade à criança; 18,2%
afirmaram que a recuperação da criança acontece
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de forma mais rápida e 4,5% não foi capaz de
justificar sua opção.
Entre as enfermeiras, 100% consideraram
importante o tratamento da dor e justificaram
sua opção com as seguintes respostas: diminui o
sofrimento do RN (50,0%); proporciona conforto
(16,7%); proporciona recuperação mais rápida
do RN (8,3%); e que a dor não tratada concorre
para conseqüências psicológicas na criança
(8,3%). Mesmo concordando com a importância
do tratamento da dor 8,3% das enfermeiras não
justificaram sua resposta.
Ao analisar as atitudes relatadas por mães e
enfermeiras diante do RNPT com dor, verificou-se
que 52,1% das mães relataram fazer carinho em seus
filhos colocando-os nos braços e na posição canguru,
enquanto que, 58,3% das enfermeiras atuam com
intervenções como a sucção não nutritiva, o uso de
glicose e a administração de analgésicos prescritos.
Considerando que a unidade neonatal em que
foi realizada a pesquisa é referência para o Ministério
da Saúde em Assistência Humanizada ao Recém-
Nascido de Baixo Peso – Método Canguru,12 os
profissionais são capacitados para orientar as mães
quanto à necessidade de oferecerem aos seus bebês
carinho além de apoiarem para a formação do apego
entre mãe e filho. O contato físico entre mãe e
filho, contato pele a pele, durante procedimentos
médicos e de enfermagem, tem se mostrado eficaz
para diminuir a dor no RN.7
Nesse sentido é importante enfatizar que o
tratamento da dor inicia-se pelas ações e atitudes
de humanização das UTIs, pela redução do ruído
e da luz, pelos protocolos de intervenção mínima
do RN, pela abordagem não farmacológica da dor
e alcança a terapêutica analgésica ou anestésica.2 O
carinho, assim como as medidas não farmacológicas,
devem fazer parte da rotina das UTINs, cabendo
à enfermeira promovê-las por meio da capacitação
da equipe e do fazer cotidiano.
Em relação às situações nas quais se costumava
utilizar analgesia, verificou-se nas respostas
das enfermeiras que 75,0% citaram apenas procedimentos
realizados por médicos, podendo significar
que não consideram dolorosos os procedimentos
de enfermagem. Um dado interessante observado
é que, apesar das enfermeiras não citarem os procedimentos
de enfermagem como dolorosos, 58,3%
delas adotam intervenções não farmacológicas como
citadas anteriormente.
Tabela 1 - Distribuição das respostas de mães
e enfermeiras de uma UTI Neonatal, quanto à
identificação da foto da face de dor do RNPT. São
Luís - MA, 2005.
Face com expressão
de dor
Mães Enfermeiras
n % n %
Foto I - - 1 8,3
Foto II 2 8,7 1 8,3
Foto III 4 17,4 5 41,7
Foto IV 15 65,2 5 41,7
Foto V - - - -
Foto VI 2 8,7 - -
Total 23 100,0 12 100,0
Quanto à identificação da face de dor, verifica-
se na Tabela 1 que 65,2 % das mães e 41,7%
das enfermeiras reconheceram adequadamente a
foto indicativa de dor (Foto IV). No entanto, as
mães foram capazes de identificar melhor os sinais
de dor do que as enfermeiras. Os pais são os que
melhor observam e informam aos profissionais de
saúde a respeito das alterações comportamentais
que possam estar ocorrendo com seus filhos, o que
possivelmente se justifica devido ao seu contato
íntimo e pessoal com a criança.12 Segundo o autor
a avaliação comportamental da criança, realizada
pelos pais, é muitas vezes mais acurada que a de
médicos e enfermeiros. Quando perguntado o
motivo pelo qual escolheram a foto número IV,
100,0% das mães e das enfermeiras relataram ter
sido a expressão do rosto.
Observa-se que 17,4% das mães e 41,7% das
enfermeiras indicaram a foto número III, na qual
o RN expressa desconforto por fricção do calcanhar,
como sendo a foto de expressão de dor. Das
mães, 17,2% escolheram foto II e VI, que expressam
desconforto causado por ruído e iluminação
excessiva respectivamente. Entre as enfermeiras,
8,3% indicaram a foto I que representa um bocejo
e 8,3%, optaram pela II, que expressa desconforto
causado por ruído. As alterações da mímica facial
constituem um dos eixos fundamentais no estudo
da expressão de dor em RNs. Várias pesquisas
têm indicado que a observação da expressão facial
parece ser um método sensível específico, e útil
para a avaliação da dor em recém-nascido a termo
e pré-termo, pois além de não invasiva, é efetiva
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e universal, tanto por adultos treinados na sua
decodificação como por indivíduos não treinados
que são responsáveis pelos cuidados diários do neonato,
como enfermeiras e pais.1,5-6,13 Aliada a estas
questões, a avaliação facial de crianças pré-verbais
é expressiva e pode informar ao observador, além
da dor, o estado emocional do neonato.13
Durante as entrevistas constatou-se que
uma grande parte das enfermeiras pesquisadas,
mostrava-se desconfiada e insegura com as questões
do instrumento de coleta de dados. Pode-se
inferir que este fato tenha ocorrido por sentirem
uma responsabilidade maior em identificar a foto
correspondente à face de dor, como se isso fosse
influenciar em sua qualidade profissional. Isso
pode ter influenciado no maior número de “erros”
por parte desse grupo.
Quanto ao tempo de experiência em neonatologia,
verificou-se que as enfermeiras que possuíam
mais de nove anos de serviço, não conseguiram
identificar a face do RNPT com dor. A experiência
profissional, o conhecimento teórico e o reconhecimento
da dor de pacientes são fatores controversos,
apresentando resultados diferentes em diversos trabalhos.
Para alguns, a experiência profissional não
exerce qualquer influência na interpretação da dor
do paciente feita pelo profissional de saúde,13 e que
o maior conhecimento teórico, a maior bagagem
educacional, a experiência profissional mais intensa
e o convívio mais próximo com a dor de pacientes
podem, conjuntamente, dificultar a percepção da
equipe de enfermagem quanto ao reconhecimento
da dor no RN.1 Ao contrário, outros estudos,14
mostram que os profissionais de saúde com maior
conhecimento teórico e com maior experiência
profissional são mais sensíveis em termos de reconhecimento
da intensidade da dor.
Observou-se nesta pesquisa que as mães primíparas
obtiveram maior êxito na identificação
da foto correspondente a face de um RNPT com
dor. Entretanto, alguns estudos demonstram que
o fato de ter ou não filhos não exerce qualquer
influência no reconhecimento da dor expressa por
indivíduos adultos.14
Seria possível tecer outras discussões sobre
esses dois últimos aspectos se a proposta fosse um
estudo analítico e de associação estatística das variáveis,
o que não foi o caso. Fica aqui um vazio que
poderá ser preenchido por outras pesquisas.
CONCLUSÕES
A dor como um sinal subjetivo, acrescida da
impossibilidade do RN verbalizá-la, condiciona
o profissional de saúde em Unidade de Terapia
Intensiva Neonatal a estar atento às alterações
comportamentais e fisiológicas que acompanham
o episódio doloroso, além de apontar para a necessidade
da utilização de instrumentos de avaliação
para mensuração da dor nessa faixa etária.
Tendo em vista os resultados do estudo, a avaliação
da dor deve ser preocupação do enfermeiro,
considerando que a identificação de sinais álgicos e
sua caracterização, são ferramentas importantes para
o cuidado ao RNPT. Por outro lado, a avaliação da
dor caracteriza-se como um desafio no cuidado à
criança apesar da certeza e das evidências científicas
de que a identificação e o manejo da dor determinam
um cuidado qualitativo. Ainda sob esta perspectiva
é preciso que os profissionais de saúde valorizem os
relatos das mães e os sinais por elas identificados que
dizem respeito às condições clínicas do RN.
Faz-se importante afirmar que uma das formas
de controlar a dor é a comunicação que se faz entre
os RNPT e seus cuidadores (mães e profissionais).
Portanto, reconhecer essa linguagem é uma das estratégias
para o cuidado humanizado, qualificado e
integral. Dessa forma, é preciso que profissionais e
mães sejam capazes de identificar os sinais de dor utilizando
a atenção e a sensibilidade para percebê-los.
As enfermeiras envolvidas no cuidado com
RNPTs, assim como as mães dessas crianças, para
intervirem efetivamente diante de um sinal de dor,
devem estar aptas a reconhecer esses sinais emitidos
pelo RN, a fim de que contribuam para a diminuição
ou ausência da dor de forma a proporcionar a recuperação
e o desenvolvimento normal do RN.
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FONTE FACULDADE METODISTA- SAO BERNARDO DO CAMPO, CREDITOS ACIMA

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